Amores de verão
Luis Fernando Verissimo
Eu sei, eu sei. Não duram mais do que a marca do maiô os amores de verão, e lavarás meus beijos dos teus pés junto com o sal. E procurarás aquela concha que eu te dei na praia para lembrar de mim pra sempre e dirás "Ih, esqueci", aquela concha com a minha vida dentro. Eu sei, eu sei, meu coração também não coube na sua mochila, ficou numa gaveta, junto com o protetor solar número 3 e o Harry Potter. Nos encontraremos na cidade e eu pedirei meu coração de volta e você dará um tapa na testa e dirá, "Ó cabeça" e dirá "Desculpe, viu Renato" e isso não será o pior. Nos encontraremos por acaso, não como combinamos, mas isso também não será o pior. Nada do que combinamos aquela noite na praia, sob aquela lua, com aquela lua nos seus cabelos, com seus cabelos fosforescendo sob aquela lua, nada do que combinamos naquela noite sob aquela lua acontecerá, e isso também não é o pior. Eu sei, eu sei, eu não esperava que nossos grandes planos dessem certo, o juramento de não voltar para a escola mas fugir para os Estados Unidos, cada um com o seu sonho e o seu inglês do Yázigi, e dar duro e ser feliz e só voltar famoso, você como cantora e eu, sei lá, como o melhor entregador de pizza do mundo, ou o plano de casar ali mesmo, o luar como grinalda, a espuma do mar como testemunha, a concha em vez de um anel e ninguém ficar sabendo, e ficar vivendo na praia ou voltar e ir viver juntos numa cobertura com piscina se nossos pais concordassem com o preço, para sempre, ou o plano de nunca, nunca mais, nunca nos separarmos. Mas pelo menos os planos menores, como a data certa para nos encontrarmos na cidade, na volta, eu esperaria que você não esquecesse, e você esquecerá, mas tudo bem, o pior não é isso. Nos encontraremos por acaso, meses depois, com o bronzeado desbotando, e você dirá "Desculpe, viu Renato" e eu direi tudo bem, quem precisa de um coração enganado, mesmo? Fique com ele, plastifique, use como centro de mesa, quem se importa? Eu já beijei os seus pés, eu já beijei todo o seu corpo enluarado, mas quem se importa? E direi: o pior, viu? O pior, o que dói, e doerá por muitos verões, é que meu nome não é Renato, é Roberto.
Danem-se
(Da série Poesia numa Hora Destas?!)
Vem, alma minha já que tão vizinha está do nosso ninho a ventura que cá dela se sente a vinha... Vem, vem - e danem-se os cacófatos!
Engano
Ela acordou na quarta-feira de cinzas ao lado do Saddam Hussein. Os dois nus, ele só com a máscara tapando o rosto, e roncando. Onde é que eu estou? Pensou ela. E, mais importante, com quem? Que fim levou o Lula? Ela se lembrava de pouca coisa da noite anterior, mas de uma coisa tinha certeza. Fora para a cama com o Lula. Ou com um Lula. E agora acordava com um Saddam. O que acontecera? Não estava tão bêbada assim. Ou estava, mas não a ponto de não saber com quem fora para a cama. Era o Lula. Sem dúvida nenhuma, era o Lula. Ou teria ido para a cama com dois? Um Saddam e um Lula? Ou, meu Deus, com três. Com um Bush também! Não, com o Bush não. Por mais bêbada que estivesse, não iria para a cama com o Bush. Mas onde estava o Lula?
Levantou a máscara do homem, que dormia profundamente. Não o conhecia. Sacudiu-o.
- Ei, Saddam! Acorda!
O homem parou de roncar. Mais uma sacudida e abriu os olhos. Sorriu para ela. Disse:
- Oi.
- Quem é você?
- Você não se lembra? Passamos toda a noite juntos. Brincamos juntos. Trocamos confidências. Você...
- Péra lá. O homem com quem eu passei a noite, brinquei e troquei confidências tinha a máscara do Lula.
- Não. A máscara era esta mesmo. Do Saddam.
- Impossível. O Lula tem barba, o Saddam não tem. Eu não poderia me enganar. Ou poderia?
- Você se enganou.
- Também, essas máscaras são tão malfeitas...
Ele acariciou o braço dela e perguntou:
- Faz alguma diferença?
Ela puxou o braço, irritada:
- Claro que faz, né?
Ela não sabia bem que diferença fazia, mas enfim. Tinha seus princípios.
Domingo, 9 de março de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.